O que aprendi: Um ano de Irlanda – ou como viver cinco anos em 12 meses

Se fechar bem os olhos e acalmar os pensamentos, consigo me transportar para os meus primeiros momentos em Dublin: o alívio de passar pela imigração e de ver que minha mala chegou sã e salva. A chegada na acomodação, o percurso até meu primeiro quarto, o barulho da porta se fechando atrás de mim e o medo misturado ao entusiasmo em saber que dali pra frente eu estava sozinha em um país novo, com uma língua diferente e pessoas desconhecidas. À minha frente, os planos, a vontade de percorrer o mundo e fazer tudo dar certo.

Hoje, posso dizer que deu e está dando certo. A ideia do intercâmbio vem acompanhada de muitos contras: deixar a família, ficar fora do mercado de trabalho e torrar as economias, por exemplo. Ainda assim, essa foi uma das decisões mais acertadas que já tomei. Além do combo “novo idioma/novas culturas”, o intercâmbio traz uma superdose de autoconhecimento. Quem não é barraqueiro, roda a baiana. Quem é preguiçoso, começa a se mexer ou volta pro Brasil. Você aprende que pode ir além dos seus limites. Mesmo.

Esse ano longe de casa (aonde é minha casa? eu ainda tenho casa?) passou muito rápido e eu mal acredito que já renovei o visto. Ao mesmo tempo, aprendi tanto e mudei tanto que sinto como se estivesse fora há muito mais meses. Aqui vão as mudanças pessoais que mais chamaram minha atenção nessa nave louca que é o BBB, digo, o intercâmbio:

Shampoo até o fim – No Brasil, costumava acumular shampoos, condicionadores e máscaras de hidratação pelos armários (sapatos também. E livros). Enjoava deles quando na metade e, “por coincidência”, sempre tinha algum lançamento que eu queria testar. Aqui não. A vontade ainda existe, mas a necessidade de guardar os eurinhos para outras coisas – viagens ou passeios – dão um freio no impulso. Na verdade, usar o shampoo até o fim (e lavar o frasco com água pra aproveitar o restinho #coidepobre) é uma metáfora. Meu consumismo diminuiu consideravelmente, afinal, nós, intercambistas, moramos em casas que não são nossas e a qualquer momento podemos precisar empacotar as coisas e fazer mudança. Você até olha para aquele par de sapatos ou para aqueles livros a menos de € 5, mas pensa duas vezes no peso e na trabalheira e PIMBA! Desiste.

(in)Dependência Emocional – Alerta! Esse tópico é complexo e extremamente pessoal. A verdade é que eu sempre quis passar um tempo morando fora/sozinha e, nos meus mais otimistas devaneios, me imaginava auto-suficiente em relação aos meus relacionamentos. Uma vibe meio Paula-Paquita da Xuxa.


#TrocoPorOutros

Na minha cabeça, funcionava assim: “tem Skype, tem Whatsapp, cabô o drama”. PÉEEEM! Errado! A saudade dói, mas passa. E dói de novo e passa de novo e você aprende a conviver com ela ali, do seu lado. Fazer amigos – amigos, não conhecidos – mostrou-se uma tarefa árdua (pra mim) e não ter com quem contar ou ser livre para expor todas as suas ~ridicularidades~ faz falta e balança o emocional. #foreveralonismodetected

 demi-crying-lorde

Por outro lado, lhe ensina a não deixar a sua felicidade e bem-estar à mercê de e-mails ou mensagens no Gtalk, Whatsapp, Facebook… Você acaba repensando quem quer e quem merece continuar na sua vida, ainda que de longe.

A chuva e o frio não são desculpas – Meu primeiro inverno: às 16h já estava escuro e só amanhecia quase às 09h da manhã. Nesta época, sair da cama era difícil, tomar banho diariamente exigiu disciplina (#sinceridade) e até a vontade de ir ao banheiro de madrugada foi questionada quando se tinha sensação térmica de -9ºc.

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É nessa situação que a vida social pode desandar, já que a vontade é ficar embaixo do edredom por, sei lá, oito meses. Aí me enchia de coragem, vestia três camadas de roupa, saía e… via que a vida seguia normalmente nos pubs e nas ruas. Em Salvador, a chuva é desculpa pra cancelar consultas, reuniões, viagens ou comemorações. Aqui, na maior parte do ano, é só uma questão de acontecer antes ou depois de você chegar ao seu destino.

Aproveitar o sol – ainda falando sobre o clima: em Dublin, você aprende a dar valor aos dias ensolarados. Eles são tão raros que desperdiçá-los em casa, fazendo nada, é um pecado.

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curtindo uma petecagem em Portmarnock

Já fiz e me senti culpada depois. Piquenique, passeio de bicicleta ou apenas tostar na grama de algum parque já valem a pena.

Novos interesses – Como falei no início, o intercâmbio lhe faz desenvolver uma nova versão de si mesmo. Nunca fui esportista, mas passei a usar a bicicleta como meio de transporte há oito meses e pedalo cerca de 40/50 km por semana. Além disso, descobri que gosto de fazer caminhadas pelas montanhas. Minha meta é fazer todas as recomendadas pelo site Wild Atlantic Way, exceto a Diamond Hill, pois já fiz quando estive em Letterfrack – a lista você confere aqui. Minha mais nova empreitada é dominar o bodhrán, instrumento considerado o coração da música irlandesa. E não falo da boca pra fora, não. O vídeo abaixo traz um pedaço da minha primeira aula.

Na próxima semana chego na metade do primeiro módulo de oito aulas. E vamos em frente!

Quais foram as suas mudanças e aprendizados desde que desembarcou aqui? :)

7 Comentários


  1. que bom, que belo texto. bom saber e ver um pouco de “papai, papai, papai” nele em alguns tópicos. vamos em frente!!!

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  2. Quanta coisa legal, Savana! Parabéns pelos aprendizados e conquistas nesse 1 ano – achei sensacional você estar aprendendo a tocar o bodhrán! :)

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    1. Já tentei violão quando era mais nova, já tentei ukulele, mas foi um desastre. O bodhrán, pra mim, é mais fácil – mas ainda é difícil! xD

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  3. Gostei! Tenho muito medo do frio e é bom saber que há pessoas como eu que estão firmes e fortes. Coragem, Savana!

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    1. Oi, Suzi. Vc já veio, tá chegando ou quer vir?
      Você acaba aprendendo a lidar com frio, mas que é chato, é! Hahaha

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  4. Olá! Parabéns pelo blog. Comecei acompanhar agora e já gostei.
    Estou fazendo planos em ir, mas tremo na base só de pensar nesse frio.

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    1. Oi, Myla! Obrigada pelo seu comentário. Fico feliz que tenha gostado! :D
      O frio faz a gente tremer, de verdade! Mas com o tempo você acostuma. Passei uns dias fora de Dublin e o “calor” de 22ºc me fez suar. Em Salvador, com essa temperatura, eu já estaria tirando o casaco do armário, haha. Perca o medo do frio e venha pra Dublin!

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