“Eu não estudei pra ir lavar prato pra gringo” – Coisas que você aprende durante o intercâmbio

O título é chocante, eu sei. Na primeira – e felizmente única – vez em que ouvi isso, também passei alguns segundos tentando entender se aquela pessoa realmente queria ter dito aquilo. Infelizmente, sim. Em sua opinião, sair do Brasil e se desapegar do status profissional adquirido através do diploma era um desperdício, um retrocesso. Esse posicionamento parece ultrapassado, mas reflete o pensamento de muita gente quando o assunto é intercâmbio e trabalhar no exterior. Para alguns, o fato de desempenhar certas funções é humilhante ou algo a ser escondido. Spoiler da vida: não é.

Corta pro verão de 2005/2006: estava de férias, ainda não trabalhava e queria arranjar dinheiro. Tive uma ideia genial: fazer brigadeiros pra vender na praia. Chamei meu vizinho Massumi* (nome parcialmente trocado para preservar a identidade. Vai que… haha) para ser meu sócio e lá fomos nós, de ônibus, com duas caixas de plástico repletas de docinhos. Andamos pra lá e pra cá e, de 30, vendemos uns sete ou oito. Não fiquei rica, mas quem é que vai mensurar prejuízo quando se tem aquele monte de brigadeiros à disposição? Naquela mesma semana, estava em uma festa de forró e uma conhecida comentou ter me visto no Porto da Barra. Um segundo depois, ela acrescentou que não falou comigo pois talvez eu teria vergonha por estar ali, descalça na areia, vendendo.  Aí está uma situação que ilustra o tipo de pensamento por trás dessas afirmações. No fim das contas, deixei claro que não teria problema algum e provavelmente devo ter feito alguma brincadeira passivo-agressiva.

Apenas observando você ser idiota
Apenas observando você ser idiota

Corta pra 2014 – Cheguei em Dublin e uma das primeiras providências foi criar um currículo com algumas informações, digamos, inverídicas. Pra ser sincera, meu nome e minha data de nascimento eram as únicas verdades daquela folha. Meu CV dizia que eu tinha trabalhado na praça de alimentação de um grande Shopping em Salvador, recolhendo pratos e mantendo a área limpa e organizada. Também tinha trabalhado lavando pratos em um barzinho perto da minha casa e limpando o banheiro feminino em uma casa noturna. Tudo mentira, mas se esse era o preço a se pagar para ficar em Dublin por um ano, eu estava disposta a encarar.

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Encontrei emprego na minha área quatro meses depois (aleluia, irmão), mas trabalhei como Au Pair por nove meses – uma das mais ricas experiências que tive –  e também já fiz uns bicos de faxina. Nesse último, lavei banheiro, catei calçola usada do chão, vi gente sujar o que eu tinha acabado de limpar e trabalhei por três semanas em uma casa na qual o cachorro da família era o ser mais simpático à minha presença.

Pergunta frequente nº 1 – “Nossa, mas e aí? Como você lidava com isso?“
É simples. Xingando muito mentalmente, prometendo que nunca farei o mesmo com outras pessoas, respirando fundo e pensando no dinheiro, claro. Já dizia Michael Jackson: “Don’t stop till you get enough”.

Pergunta frequente nº 2 – “Tudo isso a troco de quê?”
De morar aqui. De poder viajar sem gastar muito. De ter a bicicleta como um meio de transporte viável e respeitado. De não ter (muito) medo de andar na rua. De encontrar caixinhas de After Eight a € 1,99. Cada um tem seus motivos particulares.  E eu não sou a única a pensar assim. Conversei com alguns colegas de sala na SEDA e eles pensam da mesma forma. Quero compartilhar essas histórias com vocês. : )

Maria Carolina, 26, publicitária trabalhava na assessoria de comunicação do Governo da Bahia| Salvador-BA

 “Sempre quis morar fora, principalmente em lugares de língua inglesa. Eu AMO falar e AMO MAIS AINDA falar em inglês!

Meu primeiro emprego aqui foi de camareira em residência estudantil. Era só um trabalho de verão para pagar as viagens. Era super divertido e meus colegas de trabalho eram estudantes de todo lugar do mundo. Brasileiros, venezuelanos, espanhóis, irlandeses, africanos…

Uma amiga de escola me perguntou se eu gostava de crianças e se gostaria de ser au pair, pois a melhor amiga da host mom dela estava precisando de alguém para ajudar com os pequenos. Eu pensei: ‘Ah, vou lá só fazer a entrevista né?! Vai que rola!’  Adorei a família e estou com eles ainda. Sou apaixonada pelas crianças e meu inglês é outro!”

E será que vale a pena?

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Verão na Grécia? Sim, por favor.

“Acho que vale super a pena, porque isso é temporário, você não precisa e nem vai fazer isso pra sempre. É muito bom pra seu desenvolvimento pessoal. Te faz ver o mundo com outros olhos, além de gerar aquela grana maravilhosa para ir comer croissants em Paris, andar de camelo no Deserto do Saara, ver a London Eye e o Big  Ben.

Tudo na vida é passageiro! Se colocar no lugar do outro é muito bom, te faz entender que todo mundo é igual, te faz valorizar cada coisa que você consegue com o seu próprio suor, te faz crescer pessoalmente, te faz forte, independente e muito mais tolerante!

Além disso, trabalhando meio período de aupair e sendo estudante nessa terrinha gelada vivo muito mais feliz, menos  estressada e realizando mais sonhos do que quando eu vivia trabalhando sentadinha num escritório no Brasil”.

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Passeando por Londres

Viu que eu disse? E calma que ainda tem mais história.

Junia, 34, advogada | Reginaldo, 36, gerente de contas – ambos de Florianópolis – SC.

Junia: Em 2006 fiz o meu primeiro intercâmbio, porém o destino escolhido não foi a Ilha Esmeralda, mas sim, os Estados Unidos. Como o Reginaldo nunca tinha tido esta experiência e a vontade de morar em outro País e aprender a falar outra língua era grande, resolvi encarar outro intercâmbio.

Reginaldo: Em 2008 fiz minha primeira tentativa de fazer um intercâmbio e o destino era a Austrália, porém, acabei desistindo por vários motivos. Um deles na foi que naquela época falei com algumas pessoas que assim como eu nunca tinham saído do Brasil e eles acabaram me desencorajando dizendo: “você tem uma carreira aqui, vais para um país que não te quer lá, pra lavar prato? ”. Aquela vontade de fazer um intercâmbio nunca saiu da minha cabeça. Algum tempo passou e em 2014, quando eu a Junia planejávamos uma viagem para os EUA a passeio, eu parei e pensei: “Por que ao invés de gastarmos essa grana pra turistar, a gente não tenta um intercâmbio?” E foi assim que viemos parar aqui.

Junia: Assim que chegamos em Dublin começamos a distribuir os currículos e nos cadastramos em sites de emprego, mas no meu caso isso não funcionou. Comentei com uma amiga que morava em Londres sobre a dificuldade de encontrar um emprego formal (fazia apenas um mês que estava na cidade…pensa em uma pessoa agoniada!) e ela disse que tinha uma conhecida que morava em Dublin e perguntou à ela se saberia de alguma oportunidade. Para a minha sorte, este anjo que caiu do céu disse que sim (por isso que sempre falo da importância de ter um bom networking) e comecei a trabalhar como PR (Promoter Restaurant) num restaurante na região do Temple Bar. Lá experimentei os pratos típicos irlandeses, descobri o significado de “hen party” e “stag do”, aprendi que cinco minutos de atraso no trabalho é motivo de reclamação (afinal, você recebe por hora) e, principalmente, comecei a entender o sotaque irlandês.

Reginaldo: Assim que chegamos aqui começamos a distribuir currículos e fazer cadastros nos sites de emprego, um belo dia um colega da SEDA me disse que estavam contratando na empresa que ele trabalhava, uma empresa de cleaner. Mandei meu currículo três vezes para a recrutadora e ela decidiu me chamar para uma entrevista, na época eu ainda não tinha um bom nível de inglês. Entendia, mas não conseguia falar muito bem. Fui pra entrevista e em um dia iluminado consegui me comunicar e pegar a vaga. Foi muito difícil no começo, pois era um trabalho totalmente manual, pesado, uma coisa com a qual definitivamente não estava acostumando. Nesse trabalho descobri o significado de Hard Work. Três meses depois, um amigo me indicou para uma vagar de PR em um restaurante no Temple Bar. Trabalhava do lado da Junia. Esse trabalho foi muito importante pra mim, pois foi onde desenvolvi o inglês e foi o que me ajudou a conquistar o meu atual emprego de promoter em uma empresa de turismo, onde trabalho vendendo passeios turísticos pela Irlanda.

No Temple Bar, área onde trabalharam lado a lado :)
No Temple Bar, área onde trabalharam lado a lado :)

Juntos, Junia e Reginaldo visitaram a Irlanda do Norte, Inglaterra e França. Será que tem valido a pena?

Junia: Vale muito a pena! Tanto pelas coisas que você vivencia e aprende no dia a dia, quanto pela experiência de vida. Conhecimento é algo que ninguém tira de você. Em minha opinião, isso é o que mais importa.

 Reginaldo: Cada segundo… Você aprende a conviver com diferentes culturas, aprende a respeita-las e até mesmo a gostar delas.

Junia: Vergonha é roubar e matar. Trabalho é dignidade, independente de qual função você exerça. E exercer uma função de serviço durante o período do seu intercâmbio só vai tornar essa experiência mais interessante e proveitosa, além de ajudar com as despesas.

É fato: ser um imigrante é difícil e exige uma boa dose de resiliência (minha palavra favorita quando o assunto é aprender com os erros e adversidades). A experiência de trabalho no exterior pode não agradar a todos. Exige desprendimento de muitos fatores e, em alguns casos, você chega ao seu extremo, seja de esforço físico ou de autocontrole, mas uma coisa é certa: você vai evoluir e levar algo consigo pra vida inteira. :)

2 Comentários


  1. Que texto maravilhoso, Savana!
    É, de longe, o melhor post em todo o tempo do seu site. Me identifiquei demais e desejo passar pelo mesmo em breve.
    Parabéns.

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    1. Hey, Bruno! Quanto tempo! :) Que bom que você curtiu. Obrigada pelo comentário! E aí, quando é que você chega por essas bandas? :D

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