Impressões de um irlandês no Brasil

Passagens compradas. Brasil, lá vamos nós! Seria não apenas a minha primeira visita ao meu país desde que vim fazer intercâmbio em Dublin, mas também a primeira vez do David na América do Sul. Cada pessoa falava uma coisa. Cuidado com os mosquitos, não exagere no dendê, não reaja a assaltos, passe protetor solar, não beba água da torneira e por aí vai. Eram seis semanas e ele, ao mesmo tempo que tinha expectativas altas, não sabia o que esperar.

Antes da viagem, David foi tomar vacinas e, ao informar a médica sobre seu destino, ouviu mais alguns conselhos. O que mais chamou atenção foi “não coma street food” ou seja: vetando o acarajé, o queijinho de praia e o dogão da esquina, pela potencial falta de higiene e controle de qualidade.

Ao desbloquear o cartão do banco, ele teve que ouvir mais um sermão da moça, dizendo pra ele ter cuidado com os estabelecimentos que aceitam cartões e nunca entregá-lo para terceiros. Tentavam alertá-lo por todos os lado e eu confesso que também estava meio receosa em relação a assaltos.

No fim das contas, foram seis semanas de momentos inesquecíveis. Passamos por quatro cidades e cada uma delas deixou uma marca na nossa estadia. Compartilho com vocês alguns pontos que mais chamaram a atenção dele. Confira!

Sorriso metálico – Na Irlanda, o valor inicial de um tratamento ortodôntico atinge fácil a casa dos € 2 mil, ou seja, não é pra todo mundo.  Ciente do quão baixo é o salário mínimo no Brasil, David não conseguia entender como é que pessoas vendendo produtos nas praias ou nas ruas conseguiam pagar pelo aparelho.

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Expliquei que colocar aparelho ortodôntico no Brasil é muito mais barato e que diversas facilidades são oferecidas, como parcelamento ao longo de todo o tratamento. Ponto pra nós!

Tudo pode ser pago em parcelas – Essa aconteceu em nossa primeira ida ao shopping. Passamos por uma vitrine e ele viu vários pares de tênis expostos, com uma plaquinha onde lia-se R$99,00. Ele começou a falar atropelado. “Esse-preço-tá-muito-bom-vou-comprar-logo-três-será-que-tem-meu-número?”.

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Eu, mulher vivida e madura, controlei a histeria do boy e apontei lentamente para as letras miúdas, que traziam um discreto “5X”. Boquiaberto (de verdade) e indignado pela “pegadinha”, David passou boa parte daquele dia prestando atenção em tudo o que é possível ser parcelado e comentando como é estranho passar cinco meses pagando por tênis/celular/óculos escuros.

Vossa mercê gostaria de estar provando este belo sapato? – Vencido o baque das parcelas, fomos na Centauro e o David quis provar alguns modelos. O vendedor trouxe cinco caixas, ajoelhou em posição de pedir em casamento e começou a mostrar os produtos.

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Sentado, David me deu aquele olhar de dois segundos e na hora percebi que ele não sabia se provava ou se ajoelhava e ficava no mesmo nível. Pra ele foi desconfortável ter uma pessoa ajoelhada na frente, tentando lhe convencer a comprar alguma coisa.

Refeições compartilhadas – Éramos cinco em um restaurante e pedimos dois pratos: Escolhi escondidinho de carne de fumeiro <3 pra mim e pro David, enquanto minha mãe e meus irmãos optaram por frango à parmegiana.  As porções eram bem grandes, mas não me servi do outro prato pois queria mesmo era matar a saudade do sabor marcante da carne defumada com aipim. Verdade seja dita: ele não gostou muito da minha escolha e comeu só um pouquinho. Ofereci o frango e ele ficou meio hesitante, sem saber se podia mesmo pegar uma porção do prato dos outros.

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Conversamos sobre isso, esclarecemos que o que tá na mesa é pra ser dividido e ele revelou que gostou desse esquema em que todo mundo come de tudo, como em um almoço em casa. Na Irlanda, na maioria dos restaurantes, cada pessoa pede um prato individual e cada um come o seu ou no máximo divide com mais alguém.

Porta-papel higiênico – Em mais de uma ocasião vimos esse item tão retrô. Ele achou engraçada a ideia de ter um armáriozinho pro papel. E, claro, demorou a se acostumar com a ideia de ter que jogar o papel no lixo na maioria dos lugares.

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Programas de TV machistas – bastou um minuto de Programa Sílvio Santos pra ele levantar a sobrancelha e perguntar como eu assistia àquele programa que só aceitava mulher na audiência e tinha um homem jogando aviãozinho de dinheiro pra elas. Confesso que fiquei feliz pela percepção dele, mas gaguejei e fiquei sem resposta ao questionamento. Foi como se a ficha caísse e ainda estivesse caindo. É Silvio Santos, ele é uma lenda, mas e daí, né? Que é bizarro, é.

img_20170106_223015 Outro que chamou a atenção dele, de maneira negativa, claro, foi o programa do Ratinho, mas aí nem precisa de muita explicação.

img_20170106_220742Vagão das mulheres – No Rio, entramos no vagão feminino no horário em que o acesso é permitido ao público geral. Apontei para o adesivo e expliquei que em determinados momentos, apenas mulheres podem usar aquela área. Ele achou esquisito e quis saber o porquê. Falei sobre casos de assédio e estupro e ele ficou perplexo em saber que esse tipo de coisa acontece em um país moderno. Mal sabe ele que acontece, inclusive, no país dele também.

Os pés em qualquer lugar – Essa é uma observação que eu nunca tinha feito até então e que me irritou muito. As pessoas ficam descalças e colocam os pés pra cima na primeira oportunidade. Foi assim duas vezes no Starbucks (inclusive quando estávamos em busca de cadeiras e as pessoas ocupavam dois assentos ao invés de um como se isso fosse um direito delas), na praça de alimentação do shopping, no aeroporto e até no cinema, quando uma senhora teve a brilhante ideia de ficar descalça e apoiar os pés na poltrona na frente.

Criatividade e sevirância – Sim, somos um povo criativo e encontramos as mais diversas formas de trabalhar. Seja com bebidas mais baratas na frente dos bares ou vendendo água, amendoim e panos de pratos no engarrafamento.

Foto: gastronomiaderua.com.br
Foto: gastronomiaderua.com.br

Gente que anda pelas praias oferecendo cangas, bronzeadores, queijo, acarajé, sanduíche, camarão no espeto, drinks variados e até capa pra celular. Nossa inquietude chamou a atenção de maneira positiva.

Top 3 – Comidas Favoritas

1 – Queijo coalho assado na brasa, na praia

2- Moqueca de camarão – até trouxemos uma panela de barro pra cá

3 – Dividindo o terceiro lugar: açaí e acarajé

Melhor experiência: Foram muitas novas experiências, desde mergulho e stand-up paddle no Porto da Barra, passando por passeio de caiaque no manguezal e de jangada nas piscinas naturais de Maceió, mas os que ele curtiu mais foram o passeio de lancha em Boipeba e voar com a Avianca.

Algo que surpreendeu: O quanto as pessoas são amigáveis e o quão difícil é se comunicar se você não fala português. Fato engraçado: certo dia, David resolveu que ia no Burger King sozinho pois queria fazer o pedido, pagar e retirar por conta própria. OK. Ele foi pra um lado e eu fui comer qualquer outra coisa. A senha era 76 e ele sabe os números em português, então ficou naquela expectativa de ouvir “setenta e seis”. Resumindo: a atendente chamou “sete-meia” e ele, por não saber dessa particularidade, não se manifestou por um tempão. Comeu lanche frio.

Algo a ser esquecido: A nossa última noite em Boipeba, quando um minúsculo buraco no mosquiteiro resultou em 41 picadas espalhadas pelo corpo do David (e nenhuma no meu).

Cerveja preferida: Skol.

Melhor refeição: Nessa ele ficou em dúvida entre galeto no Quick Galetos ou o prato Estrela de David, no Bar do David. Ambos no Rio.

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No fim das contas, nossa estadia não poderia ter sido melhor e David se apaixonou pelo Brasil de tal forma que já faz planos de voltar em novembro. Oremos! :)

4 Comentários


  1. Nossa amei o post! Muito engraçado como coisas simples para nós no dia a dia podem parecer estranhas para um estrangeiro!
    beijoss

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    1. Obrigada, Talita! :)

      E você está certa: eu nunca tinha me tocado sobre a questão da comida, por exemplo. Pra mim sempre foi muito natural pegar um pouco de tudo, enquanto ele ficou com vergonha e sem saber se podia ou não.

      Beijos e obrigada pelo comentário! :D

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  2. Essa de colocar os pés para cima também me irrita, profundamente. Mas que bom que ele gostou e podemos olhar coisas que pra gente é natural .

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  3. Amei ler sua historia, estou indo ao Brazil com meu noivo em breve e o povo fica assist and out ele :(

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