Os irlandeses, a igreja, o sexo e os motéis

Apesar dos constantes avanços em relação a vários temas considerados tabus (como o casamento entre pessoas do mesmo sexo), a Irlanda ainda é um país com uma influência católica muito forte.

Vou trazer alguns fatos para dar mais corpo a esta afirmação:

* A communion e a confirmation (primeira comunhão e crisma) são grandes eventos na vida das crianças e adolescentes. Há toda uma preparação nas escolas, expectativa pra receber cartões – e dinheiro – dos familiares e até festas e jantares especiais para celebrar a ocasião. É comum que as vitrines de grandes lojas dediquem-se a exibir opções de trajes para as crianças e suas famílias.

* 96% das escolas primárias são comandadas pela Igreja Católica. Isso significa que crianças não-batizadas vão para o fim da lista e os pais podem ter dificuldades em matricular seus filhos não-cristãos nas escolas mais próximas de suas residências. O TheJournal.ie fez uma série de matérias sobre o assunto e eu fiquei impressionada com a situação. Alô! Que ano é hoje?

* Até por volta de 1993, a venda de contraceptivos era ilegal na Irlanda. Isso mesmo! Para comprar pílulas e camisinhas era preciso viajar até a Irlanda do Norte (por volta de duas horas de carro, saindo de Dublin), onde a venda era liberada. Quando as regras ficaram mais frouxas por estas bandas, os irlandeses ainda tinham que lidar com os olhores tortos de farmacêuticos julgadores que não concordavam com a venda.

*Estamos em 2016 e ainda existe separação por sexo nas escolas. Meninos e meninas não estudam juntos. Existem escolas mistas, mas elas só se tornaram mais comuns na última década. O David, meu namorado, estudou em uma escola exclusiva para meninos dos 08 anos até o fim do segundo grau.

* Pra terminar, tem esse vídeo de educação sexual para meninas da década de 80, no qual a apresentadora dá a entender que em uma relação sexual o homem introduz o pênis na vagina, deposita o esperma e “that’s all”, ou seja, sexo apenas como forma de reprodução. Confesso que achei esse vídeo engraçado e ri alto com a demonstração do ato.

Dizem que os irlandeses, de modo geral, são tímidos e mandam mal na paquera por conta do peso que a igreja sempre colocou nas relações com o sexo oposto. Se esse é o motivo, não sei. Só sei que o que salva muita gente nesta ilha são os apps de paquera, como Tinder, Badoo e POF.

E aí, nessa vida de encontros mais passageiros, efêmeros, de uma noite só, invariavelmente surge a pergunta: na sua casa ou na minha?

Sim, em casa. Não tem motel na Irlanda.

Ora, grande parte dos intercambistas divide quarto com pelo menos mais uma pessoa. Só em casos de muita intimidade deve rolar um esquema de colocar uma plaquinha na porta do quarto pra ter uns minutos de privacidade. Mas e aí, como lidar com o fato de levar pra sua casa uma pessoa que você mal conhece? Bem, os mais tradicionais alugam quartos em hostels ou hotéi$$$$$.

Tem gente que dirige até a praia e aproveita o banco de trás do carro. Tem gente que vai pro Phoenix Park para aproveitar a escuridão e o clima bucólico (inclusive conheço pessoas que…). As alternativas são limitadas, mas esse site trouxe algumas opções – umas irônicas e outras nem tanto – para os casais que precisam de um lugar para… hum… arrefecer a paixão.

Fiz toda essa introdução para contar uma história real. Quando conheci o David, esse estranhamento de “uh, aqui não tem motel!” já tinha passado e eu nunca trouxe esse assunto à tona. Até que em um passado recente, assistindo a um filme que não me lembro agora, vi que o personagem se hospedava em um motel nos Estados Unidos. Comentei com ele sobre os motéis brasileiros, estabelecimentos cuja única função é receber casais apaixonados – ou não – por algumas horas.

A partir daí, fizemos um tour virtual pelos mais diversos tipos de motéis de Salvador, desde aqueles mais simples, perto da rodoviária, até os mais requintados, com pista de dança e teto retrátil. Entrar por uma porta e sair por outra pareceu muito confuso para o jovem irlandês. Era um novo horizonte que se abria. Enquanto conversávamos, precisei fazer um desenho para mostrar como funciona o esquema de entrada e saída de carros.

Comentei que muitos motéis tinham jantar/café da manhã incluso e é claro que ele, como chef, quis olhar o cardápio pra ver o que era oferecido ~nesses lugares~.

motel na irlanda

Falei das filas de carros no Dia dos Namorados (encontrar a cama ainda quente? Não, obrigada). Descrevi o constrangimento de ter que entrar andando e do receio de trombar com algum conhecido no caminho pro quarto, repetindo como um mantra: “tomara que eu não veja ninguém. Tomara que eu não veja ninguém”. Com certeza você já foi um(a) estagiário(a) sem muitos recursos e já passou por essa situação. Mencionei as paredes finas. Falei da minha certeza de que nunca limpavam as maçanetas e o controle remoto e, sendo assim, estávamos em contato com objetos tocados por outras pessoas. Pessoas essas que tinham manuseado órgãos e fluidos e que certamente não lavaram as mãos antes de abrir a porta ou aumentar a potência do ar condicionado. Nojinho no sexo não vale. Nojinho do sexo dos outros: vai estar tendo – e muito!

E aí que o tema era limpeza e demoramos bastante tempo nesse tópico. Ele perguntou se as ~coisas~ ficavam lá, pra quem quisesse usar. Eu disse que sim, claro. E foi aí que deu um nó na conversa. Ele reclamando e eu achando super normal. Pra mim, ele estava se referindo aos lençóis, toalhas, travesseiros e afins. Expliquei que tudo era lavado e trocado entre um casal e outro… e lavou tá novo, né?

espanto
A reação dele

Mas não. Pra ele era “too much”. Já eu, achava inconcebível a ideia de levar uma mala com roupa de cama, travesseiro e toalha para uma aventurinha de algumas horas.

Resumindo: David achava que cada quarto de motel era uma casa do Christian Grey, com chicote, cordas, máscara da tiazinha, algemas e vibradores, tudo ali pra quem quisesse se aventurar.

Essas eram as “coisas” às quais ele se referia e me ouvia, horrorizado, dizer que era OK usar depois de lavar. Gargalhei, respirei fundo e comecei a planejar o tour presencial.

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