Song of the Sea – mágico, etéreo e heartbreaking

Song of the Sea, animação irlandesa lançada em 2014, foi uma feliz descoberta proporcionada por Renato, colega de trabalho que fez essa indicação no dia em que nos conhecemos. “Opa! Esse cara deve ser legal!”, pensei. : )

Sou fã de animações em geral. Tudo começou com os clássicos da Disney, claro, e daí foi evoluindo para outras belas descobertas, com histórias mais complexas e que não seguem o roteiro princesa-frágil-em-perigo-é-salva-pelo-príncipe-e-vivem-felizes-para-sempre (o que não me fez deixar de gostar desse tipo de fábula).

Apesar de ter Mary & Max entre minhas favoritas, as animações que mais me atraem são as 2D, aquelas desenhadas à mão, como Persépolis, A Viagem de Chihiro, Ponyo, As Bicicletas de Belleville e por aí vai.

Song of the Sea é um mágico, etéreo e heartbreaking conto de fadas. O filme é uma criação de Tomm Moore, que também é o nome por trás de The Secret of Kells, animação lançada em 2009.

 Tudo começa em 1981, em uma pequena ilha na costa da Irlanda, onde vivem o pescador Conor, sua esposa Bronagh, o filho Ben e o cachorro Cú (“cachorro” em irish).  Certa noite, Bronagh, grávida, desaparece no mar sem dar maiores explicações, deixando toda a sua vida para trás. No mesmo instante, nasce Saoirse. Seis anos depois, agora no papel de irmão mais velho, Ben associa o nascimento da irmã à ausência da mãe e a despreza. Conor se transformou em um alcóolatra melancólico e Saoirse ainda não aprendeu a falar.

Não vou me alongar na sinopse porque não quero estragar a surpresa de quem vai assistir, mas adianto que uma das sequências é ambientada em Dublin e traz algumas paisagens conhecidas de quem vive na cidade ou já passeou pela capital irlandesa. A famosa estátua da Molly Malone é uma delas.

Visual – Fiquei deslumbrada pelo universo apresentado em Song of the Sea. Cada cena parece ter sido trabalhada com extrema dedicação, seja para reproduzir Dublin, seja para recriar as paisagens que encontramos na região rural do país. Sério, é fascinante. Por vezes, até me desliguei da história para poder prestar atenção nos detalhes.

Uma das minhas sequências favoritas é quando Saoirse encontra seu casaco misterioso e se transforma em foca pela primeira vez. <3

Raízes – Além das referências ao folclore irlandês, Song of the Sea é apoiado nos mitos da cultura celta. Bronagh e Saoirse são selkies, criaturas mitológicas com o poder de se transformarem em focas e humanos. O filme também faz referência ao gigante Manannán mac Lir, conhecido como Deus dos Mares, e tem a participação de um Seanchaí, tradicional contador de histórias irlandês que, lado a lado com os bardos, eram os responsáveis por manterem vivas as lendas e canções, memorizadas e transmitidas oralmente para as novas gerações. A trilha sonora, gravada na Bulgária, conta com a participação de uma orquestra completa e traz canções em gaélico irlandês, enriquecendo o pacote.

 Inspiração – O diretor Tomm Moore se espelhou no trabalho de Hayao Miyazaki ao conceber Song of the Sea. De acordo com ele, “Você pode assistir a história [dos filmes de Miyazaki] sem saber nada sobre a cultura japonesa, mas ela traz riqueza e a história se torna mais profunda à medida que você aprende sobre cultura japonesa. Eu me senti realmente inspirado por isso”. Resolvi pesquisar a lenda dos selkies e a sensação foi exatamente essa. Os selkies machos são descritos como muito sedutores em sua forma humana. Usualmente, saem em busca de mulheres insatisfeitas, esperando por seus maridos pescadores. Já as selkies fêmeas, se tiverem sua pele – selkies precisam de um casaco de pele de foca para retornarem ao mar – roubada por um homem, passam a estar sob o seu domínio enquanto não tiverem o casaco de volta. São conhecidas por serem boas esposas e podem ter vários filhos humanos ou meio-selkies, no entanto, se encontrarem sua pele, voltam para o oceano assim como Bronagh fez logo no início de Song of the Sea. Selkies também só podem adquirir a forma humana uma vez, portanto, quando são chamados de volta ao mar, precisam de fato abdicar daquilo construído em terra, muitas vezes levando os filhos selkies junto (mini-Spoiler: meus olhos suaram). Nada disso é dito no filme. Foi preciso pesquisar pra entender – e me maravilhar – um pouco mais.

Se interessou sobre a criação do filme? Recomendo a leitura desta entrevista.

Para assistir: Popcorn Time é uma boa. Com sorte dá pra encontrar no Youtube.

Pra finalizar, segue a versão da música-tema, em inglês. :)

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